VOCO Profluorid Varnish + BioMin: como o bioglass mudou o que um verniz de flúor consegue fazer

Todo cirurgião-dentista que aplica verniz fluoretado no dia a dia conhece a limitação silenciosa do procedimento: o flúor sela os túbulos dentinários expostos e interrompe a transmissão do estímulo doloroso, mas não reconstrói a estrutura mineral que o ataque ácido já removeu. Selar não é o mesmo que reconstruir.

Essa lacuna começou a fechar quando a VOCO incorporou o bioglass da BioMin Technologies, tecnologia até então restrita a cremes dentais de uso diário, dentro do próprio Profluorid Varnish. O resultado é o VOCO Profluorid Varnish + BioMin, o primeiro verniz de flúor com essa combinação de mecanismos em uma única aplicação clínica.

Este artigo detalha a composição, o mecanismo de ação, a origem científica da tecnologia BioMin e a evidência clínica publicada até o momento, para que a decisão de incorporar o produto ao protocolo do consultório seja baseada em dado técnico, não em material publicitário.

O problema clínico: por que selar túbulos não é suficiente

A hipersensibilidade dentinária ocorre quando os túbulos dentinários ficam expostos, seja por exposição de superfície radicular, desgaste cervical, erosão ácida ou remoção de biofilme e cálculo durante a profilaxia. O estímulo térmico, tátil ou osmótico chega diretamente à polpa através do fluido tubular, gerando dor aguda de curta duração.

O tratamento convencional com verniz fluoretado atua principalmente na oclusão física dos túbulos e na formação de fluoreto de cálcio na superfície dentinária. É eficaz e é por isso que se tornou rotina. Mas a camada formada não necessariamente reconstrói a estrutura mineral perdida no esmalte adjacente, enfraquecido por ciclos de desmineralização ácida. É exatamente essa segunda frente, a remineralização de superfície, que a tecnologia BioMin foi desenvolvida para endereçar.

VOCO Profluorid Varnish: a base já validada em consultório

O VOCO Profluorid Varnish é um verniz dessensibilizante à base de colofônia, contendo 5% de fluoreto de sódio (NaF), equivalente a 22.600 ppm de flúor. A formulação foi desenvolvida para aderir a superfícies úmidas, sendo tolerante à saliva no momento da aplicação, o que reduz a dependência de isolamento absoluto do campo operatório.

O mecanismo de ação é bem descrito na literatura: o íon fluoreto, em contato com os íons cálcio presentes nos túbulos dentinários expostos, precipita fluoreto de cálcio (CaF₂), que ocupa fisicamente a luz do túbulo e interrompe a movimentação do fluido dentinário responsável pela dor. Segundo dados de levantamento com pacientes divulgados pela própria VOCO, mais de 85% relataram alívio completo da dor após uma única aplicação.

As indicações estabelecidas do produto incluem:

  • Tratamento de hipersensibilidade dentinária em superfícies radiculares expostas
  • Selamento de túbulos dentinários em preparos cavitários
  • Reposição de depósitos de fluoreto de cálcio removidos durante profilaxia profissional
  • Proteção após clareamento dental

O que é o BioMin: origem e química do bioglass

O BioMin é um vidro bioativo (bioglass) patenteado, desenvolvido em colaboração com o professor Robert Hill, do grupo de ciência de materiais da Queen Mary University of London (QMUL). A base científica remonta a trabalhos publicados sobre vidros bioativos contendo flúor, entre eles Brauer et al. (2010), que descreveram como o desenho estrutural do vidro determina sua taxa de degradação, o comportamento de pH e a formação de apatita em fluido biológico simulado.

Diferente de outros vidros bioativos à base de fosfossilicato de cálcio e sódio, o BioMin foi desenhado especificamente para conter flúor em sua matriz, na forma de partículas de fosfossilicato de fluorocálcio. Em contato com saliva, essas partículas se dissolvem de forma controlada, liberando simultaneamente íons de cálcio, fosfato e flúor ao longo de várias horas, e não em um pico único e rápido como ocorre com géis e vernizes convencionais isolados.

Até a incorporação ao Profluorid Varnish, o BioMin era utilizado exclusivamente em cremes dentais de uso doméstico, distribuídos em mais de 40 países. A entrada da tecnologia em um verniz de aplicação profissional é inédita e amplia o contexto de uso de um mecanismo já validado no uso diário para o momento da consulta clínica.

Como o mecanismo duplo funciona no Profluorid Varnish + BioMin

No VOCO Profluorid Varnish + BioMin, o bioglass é incorporado à mesma base de colofônia e mantém a concentração de 5% de NaF (22.600 ppm de flúor) do verniz original. A diferença está na segunda via de ação que passa a operar em paralelo:

  1. Fase imediata: o flúor livre reage com o cálcio dos túbulos expostos e forma fluoreto de cálcio, selando fisicamente a via de dor, o mesmo mecanismo já validado no produto original.
  2. Fase sustentada: o bioglass dissolve-se progressivamente em contato com a saliva, liberando íons de cálcio e fosfato. Esses íons, combinados ao flúor presente na formulação, favorecem a formação de estruturas cristalinas de fluorapatita na superfície dental.

A fluorapatita formada é estruturalmente mais resistente a desafios ácidos do que a hidroxiapatita natural do esmalte, o que se traduz clinicamente em endurecimento de superfície previamente enfraquecida por ciclos de desmineralização. Dados de ensaio in vitro conduzidos por Emily Thambi (Queen Mary University of London) demonstraram aumento percentual de dureza do esmalte após desafio ácido quando tratado com materiais contendo cálcio e fosfato associados a flúor, quando comparado a materiais fluoretados isolados.

Vale demarcar o escopo clínico com precisão: o mecanismo atua sobre dentina exposta e esmalte enfraquecido por desmineralização de superfície. Perda estrutural extensa, cárie ativa com cavitação ou fratura continuam sendo indicação de procedimento restaurador. O verniz não substitui esse diagnóstico, complementa o manejo preventivo e dessensibilizante que já fazia parte do protocolo.

Evidência científica: o que mostram os estudos publicados

A tecnologia por trás do BioMin, o fosfossilicato bioativo contendo flúor, tem sido investigada de forma independente em ensaios clínicos publicados em periódicos indexados:

  • Patel VR, Shettar L, Thakur S, Gillam D, Kamala DN (2019). A randomised clinical trial on the efficacy of 5% fluorocalcium phosphosilicate-containing novel bioactive glass toothpaste. Journal of Oral Rehabilitation, 46(12):1121-1126. Ensaio clínico randomizado que avaliou a eficácia do fosfossilicato bioativo de fluorocálcio (base tecnológica do BioMin) na redução da hipersensibilidade dentinária, com resultados superiores aos comparadores testados.
  • Arshad S, Zaidi SJA, Farooqui WA (2021). Comparative efficacy of BioMin-F, Colgate sensitive Pro-relief and Sensodyne rapid action in relieving dentin hypersensitivity: a randomized controlled trial. BMC Oral Health. Estudo controlado e randomizado que comparou a eficácia do BioMin F frente a formulações dessensibilizantes estabelecidas no mercado, com desfechos favoráveis ao grupo BioMin na redução da hipersensibilidade ao longo do período avaliado.
  • Revisão de escopo publicada em Clinical Oral Investigations (2025), que mapeou 72 estudos sobre produtos à base de vidro bioativo no tratamento da hipersensibilidade dentinária, incluindo 17 ensaios clínicos randomizados, reforçando a consistência do corpo de evidência acumulado sobre essa classe de material nos últimos anos.
  • Brauer DS, Karpukhina N, O'Donnell MD, Law RV, Hill RG (2010). Fluoride-containing bioactive glasses: effect of glass design and structure on degradation, pH and apatite formation in simulated body fluid. Trabalho de ciência de materiais que sustenta o racional químico da formulação, conduzido pelo mesmo grupo de pesquisa responsável pelo desenvolvimento do BioMin.

É importante uma ressalva metodológica: os ensaios clínicos publicados até o momento avaliaram majoritariamente a formulação em creme dental de uso diário, não especificamente a formulação incorporada ao verniz profissional. O racional de mecanismo de ação (liberação de cálcio, fosfato e flúor, formação de fluorapatita) é o mesmo, mas ensaios clínicos específicos sobre o verniz combinado ainda são um campo de pesquisa em desenvolvimento. Isso não invalida o produto, apenas delimita com honestidade o que já está comprovado e o que é extrapolação razoável de mecanismo.

Indicações clínicas: quando considerar o Profluorid Varnish + BioMin

O produto se aplica ao mesmo espectro de indicações do verniz original, com o benefício adicional da remineralização de superfície. Os cenários clínicos em que o uso costuma ter maior relevância prática incluem:

  • Pós-clareamento dental: pacientes que relatam sensibilidade nos primeiros dias após sessões de clareamento, quadro comum e autolimitado, mas que gera desconforto relevante para a adesão ao tratamento.
  • Desgaste cervical por bruxismo: perda de estrutura na junção amelocementária associada a forças oclusais excessivas, frequentemente acompanhada de hipersensibilidade a estímulos térmicos.
  • Pós-profilaxia profissional: remoção de biofilme e cálculo expõe temporariamente a superfície dentinária e remove depósitos naturais de proteção, cenário em que a reposição de flúor já era prática padrão.
  • Retração gengival com exposição radicular: comum em pacientes com histórico periodontal ou idade mais avançada, onde a superfície radicular exposta tem menor resistência a estímulos externos.
  • Erosão ácida de origem dietética ou gástrica: pacientes com exposição frequente a ácidos, seja por dieta ou refluxo, apresentam esmalte cronicamente enfraquecido, cenário em que a formação de fluorapatita tem relevância adicional.

Protocolo de aplicação

O protocolo de aplicação segue as orientações já estabelecidas para o Profluorid Varnish:

  1. Isolamento relativo e secagem leve da superfície a ser tratada (não é necessário isolamento absoluto, dada a tolerância à umidade da formulação).
  2. Aplicação de uma fina camada do verniz. Recomenda-se aproximadamente 0,25 ml para dentição decídua e 0,40 ml para dentição permanente em arcada completa. Camadas espessas tendem a se desprender mais facilmente e não melhoram o resultado terapêutico.
  3. Permitir contato com saliva ou realizar leve umedecimento para ativar a presa do verniz.
  4. Orientar o paciente a evitar alimentos duros, bebidas alcoólicas, escovação e uso de fio dental nas 4 horas seguintes à aplicação.

Perguntas frequentes

O VOCO Profluorid Varnish + BioMin substitui o Profluorid Varnish tradicional? Não necessariamente. Ambos compartilham a mesma concentração de flúor e o mesmo mecanismo de selamento de túbulos. A versão com BioMin adiciona a via de remineralização por liberação de cálcio e fosfato, sendo uma opção complementar para casos em que o fortalecimento de superfície é clinicamente relevante, não uma substituição obrigatória em toda indicação.

A tecnologia BioMin já era usada em odontologia antes desse lançamento? Sim, em cremes dentais de uso diário, comercializados em mais de 40 países, com estudos clínicos publicados avaliando eficácia na redução da hipersensibilidade dentinária. A novidade é a incorporação em um verniz de aplicação profissional.

Existe risco de reação adversa associado ao produto? Como qualquer verniz fluoretado, casos raros de edema localizado após uso em grandes superfícies foram reportados em bula, assim como episódios muito raros de dificuldade respiratória em crianças asmáticas com produtos comparáveis. A avaliação de histórico médico do paciente antes da aplicação continua sendo parte do protocolo padrão.

O produto está disponível para compra? Sim, o VOCO Profluorid Varnish + BioMin está disponível no catálogo da FG Dental, em tubo de 10 ml ou em apresentação SingleDose, em diferentes sabores.


Fontes técnicas: instruções de uso e material científico VOCO GmbH; BioMin Technologies Ltd; Patel et al. (2019), Journal of Oral Rehabilitation; Arshad et al. (2021), BMC Oral Health; revisão de escopo, Clinical Oral Investigations (2025); Brauer et al. (2010).

Verniz, Voco