Beautifil Shofu: a resina que interage com a saliva (e por que isso importa na prática clínica)

Quando um dentista escolhe uma resina composta, os critérios costumam ser os mesmos: estética, polimento, resistência e facilidade de escultura. São critérios válidos, amplamente discutidos na literatura. Mas existe um fator que raramente entra nessa equação — e que muda completamente a relação entre o material e o dente ao longo do tempo.

A resina Beautifil Shofu, desenvolvida com a tecnologia Giomer, é capaz de interagir com a saliva para liberar e recarregar íons ativos durante toda a vida útil da restauração. Isso não é promessa de fabricante. É tecnologia documentada em estudos clínicos de 8 e 13 anos, publicados no Journal of the American Dental Association.

Neste artigo, você vai entender como essa interação funciona, por que ela importa para pacientes de alto risco e quando incluir a Beautifil no seu protocolo de restauração.


O papel da saliva no equilíbrio do meio bucal

Antes de falar sobre o material, é preciso entender o ambiente onde ele vai trabalhar.

A saliva é muito mais do que umidade. Ela é o principal sistema de defesa do meio bucal. Segundo revisão publicada na F1000Research por Farooq & Bugshan (2020), a saliva atua como:

  • Tampão de pH: neutraliza a queda de acidez após exposição a açúcares e ácidos, protegendo o esmalte da desmineralização
  • Transportador de íons: leva cálcio, fosfato e fluoreto até as superfícies dentais para promover remineralização
  • Protetor de superfície: forma a película adquirida, uma camada protetora sobre o esmalte
  • Controlador de biofilme: regula o crescimento bacteriano e o equilíbrio da microbiota oral

Quando esse sistema funciona bem, o dente tem capacidade de se autoreparar em ciclos contínuos de desmineralização e remineralização. O problema começa quando o equilíbrio falha.

O que acontece quando a saliva não consegue proteger o dente

Pacientes com alto risco de cárie, xerostomia, refluxo gastroesofágico, uso crônico de medicamentos que reduzem o fluxo salivar ou dificuldade de higiene vivem num ambiente onde o pH cai com frequência e a capacidade tampão da saliva não dá conta.

Segundo revisão publicada no BDJ Team (Nature, 2015), quando o pH cai abaixo do ponto crítico de dissolução do esmalte, o cálcio e o fosfato salivares deixam de proteger a superfície dental e a desmineralização começa — inclusive nas margens das restaurações existentes.

É exatamente nessa zona de risco, nas margens entre a restauração e o dente, onde a cárie secundária mais frequentemente aparece. E uma resina composta convencional, nesse cenário, simplesmente preenche o espaço. Ela não participa, não protege, não interage com o ambiente ao redor.


O que é a tecnologia Giomer e como ela funciona

A tecnologia Giomer foi desenvolvida pela Shofu (Kyoto, Japão) no início dos anos 2000 como uma tentativa de unir o que há de melhor nos cimentos de ionômero de vidro — a liberação de flúor — com as propriedades estéticas e mecânicas das resinas compostas.

O componente central dessa tecnologia são as partículas S-PRG: Surface Pre-Reacted Glass Ionomer. Trata-se de um vidro fluoraluminossilicato que já passou por uma reação prévia com fluoreto antes de ser incorporado à matriz resinosa. Isso cria um reservatório ativo dentro do material, diferente das resinas convencionais, onde o vidro é inerte.

O que as partículas S-PRG liberam na prática

Segundo estudo publicado no BDJ Open (Nature, 2026), as partículas S-PRG permitem que o material libere de forma contínua seis íons com ação terapêutica:

Íon liberado Ação clínica
Fluoreto Remineralização do esmalte e inibição da desmineralização
Estrôncio Contribuição para a estrutura mineral do dente
Borato Ação antibacteriana
Sódio Equilíbrio iônico da superfície
Alumínio Estabilização da matriz mineral
Silicato Tamponamento da acidez local

O ciclo de liberação e recarga

O diferencial da tecnologia Giomer em relação a outros materiais liberadores de flúor está no mecanismo de recarga. As partículas S-PRG não se esgotam: elas absorvem fluoreto da saliva e de produtos fluoretados (dentifrício, bochechos, géis de aplicação) e o liberam novamente para o ambiente ao redor da restauração.

Isso cria um ciclo ativo durante toda a vida útil do material — não apenas nos primeiros dias após a inserção, como ocorre com os ionômeros de vidro convencionais.


O que a literatura clínica diz sobre a Beautifil Shofu

A Beautifil Shofu não tem apenas dados laboratoriais. Ela é um dos materiais restauradores com maior volume de evidência clínica de longo prazo disponível na literatura odontológica.

Estudo de 8 anos — Universidade da Flórida

Gordan et al. (2007), publicado no Journal of the American Dental Association (JADA), acompanhou 61 restaurações de Classe I e Classe II com Beautifil Shofu por 8 anos. Os resultados foram:

  • 100% de taxa de retenção ao final do período
  • Zero casos de cárie secundária em nenhuma das restaurações
  • Zero falhas e zero sensibilidade pós-operatória ao longo de todo o acompanhamento

Estudo de 13 anos — mesmo grupo de pesquisa

O mesmo grupo retornou em 2014 (Gordan et al., JADA, 2014) para um recall de 13 anos com as mesmas restaurações e encontrou:

  • 96% das restaurações sem cárie secundária
  • 66% de taxa de retenção após 13 anos de uso clínico

Comparação direta com Filtek Z350XT (3M) — 8 anos

Estudo publicado no BDJ Open (Nature, 2026) comparou a Beautifil II LS com o Filtek Z350XT da 3M em restaurações proximais ao longo de 8 anos. A taxa de sucesso clínico foi de 87,2% para a Beautifil e 87,8% para o Filtek, sem diferença estatisticamente significativa entre os materiais.

O estudo confirmou desempenho equivalente ao padrão de referência do mercado, com a vantagem adicional das propriedades bioativas da tecnologia Giomer.


Quando incluir a Beautifil Shofu no protocolo de restauração

A Beautifil não é a escolha padrão para todo e qualquer caso. A lógica do protocolo define o material, não o contrário. Mas existem situações clínicas específicas em que as propriedades bioativas da tecnologia Giomer fazem diferença real para o paciente.

Indicações prioritárias

Pacientes com alto risco de cárie Histórico de lesões recorrentes, múltiplas cavidades ativas ou Streptococcus mutans elevado. A liberação contínua de íons antibacterianos e remineralizadores contribui para criar um ambiente menos favorável à progressão das lesões nas margens.

Xerostomia Redução do fluxo salivar por uso de medicamentos (anti-hipertensivos, antidepressivos, antihistamínicos), radioterapia de cabeça e pescoço ou condições sistêmicas. Nesses pacientes, a saliva não cumpre seu papel tampão — o material pode compensar parcialmente essa ausência.

Lesões cervicais de Classe V Região de alta contração de polimerização e baixa resistência adesiva. A versão Beautifil II LS apresenta contração volumétrica inferior a 1%, reduzindo o estresse nas margens e o risco de fenda marginal — porta de entrada para cárie secundária.

Pacientes com dificuldade de higiene Idosos, pacientes com limitação motora, portadores de aparelho ortodôntico fixo ou com comprometimento cognitivo. O risco permanente de biofilme nas margens torna a ação antibacteriana do material clinicamente relevante.

Dentes com histórico de sensibilidade pós-operatória A liberação de íons contribui para menor irritação do complexo dentina-polpa após a restauração, reduzindo a sensibilidade pós-operatória relatada pelos pacientes.

Quando a Beautifil não é a primeira escolha

Em casos de alta exigência estética anterior com substrato saudável, dente jovem sem histórico de cárie e paciente com excelente higiene oral, resinas compostas de alto desempenho estético sem propriedades bioativas continuam sendo a primeira escolha — e a literatura valida esse raciocínio.

A Beautifil complementa o protocolo clínico. Não substitui o raciocínio sobre o caso.


Por que esse assunto não chegou na formação da maioria dos dentistas

A tecnologia Giomer foi lançada em 2000, mas os estudos de longo prazo que consolidam sua eficácia clínica foram publicados entre 2007 e 2026. Boa parte da formação de base ainda não incorporou esses dados — especialmente no contexto de materiais bioativos, que é uma categoria ainda pouco trabalhada nas grades curriculares de graduação.

A questão não é técnica. É de atualização.

Escolher um material que trabalha junto com a biologia do paciente, em vez de apenas preencher uma cavidade, é uma decisão que tem impacto direto no prognóstico de longo prazo — especialmente nos perfis de risco mais desafiadores que aparecem na clínica diariamente.


Onde encontrar a linha Beautifil Shofu

A linha completa Beautifil Shofu — incluindo Beautifil II, Beautifil II LS e Beautifil Flow Plus — está disponível na FG Dental, com entrega para todo o Brasil.

👉 Ver linha Beautifil Shofu na FG Dental


Referências

  • Gordan VV, Mondragon E, Watson RE, Garvan C, Mjör IA. A clinical evaluation of a self-etching primer and a giomer restorative material: results at eight years. J Am Dent Assoc. 2007;138(5):621–627.
  • Gordan VV, Blaser PK, Watson RE, et al. A clinical evaluation of a giomer restorative system containing surface prereacted glass ionomer filler: results from a 13-year recall examination. J Am Dent Assoc. 2014;145(10):1036–1043.
  • Farooq I, Bugshan A. The role of salivary contents and modern technologies in the remineralization of dental enamel: a review. F1000Research. 2020;9:171.
  • BDJ Team. Saliva: a review of its role in maintaining oral health and preventing dental disease. Nature/BDJ Team. 2015.
  • Clinical performance of low-shrinkage giomer compared to nanohybrid resin composite in proximal restorations after one year. BDJ Open (Nature). 2026.
Cárie secundáriaGiomerResina compostaResinasS-prgShofu

Deixe um comentário